PAPACÁRIE
Um Novo Material Para Remoção
Química e Mecânica da Cárie Dentária

  A maioria dos pacientes considera a experiência de ir ao dentista extremamente desagradável.
  A apreensão ocorre devido à dor/desconforto, anestesia local e utilização de brocas para a remoção da cárie dentária. Adicionalmente, o barulho excessivo provocado pelos motores de alta e baixa rotação, o qual persiste por um longo período de tempo durante a remoção da cárie, é muito incômodo para o paciente. O método de remoção químico-mecânica da cárie foi desenvolvido justamente para superar tais inconvenientes.

  Em meados dos anos 90 o gel Carisolv™ foi introduzido no Brasil com a promessa de remover o tecido cariado sem haver necessidade de utilização de anestesia e do inseparável motor de alta rotação. Constituído por um fluido de alta viscosidade, que contém além dos três aminoácidos (leucina, lisina e ácido glutâmico), cloreto de sódio, eritrosina, carboxi-metil-celulose (CMC), água destilada e hidróxido de sódio e por um fluido transparente que contém uma solução de hipoclorito de sódio de baixa concentração (0,5%).

  Os três aminoácidos reagem com o hipoclorito de sódio, neutralizando o comportamento agressivo do mesmo nos tecidos sadios e aumentando a velocidade da remoção da cárie. O kit também é constituído por um conjunto de curetas sem corte especialmente desenhadas para a remoção exclusiva da dentina infectada. O único inconveniente do Carisolv™ era seu elevado custo, o que impedia sua utilização em larga escala em nosso país.

  Em 2003 foi desenvolvido pela Profª Drª Sandra Kalil Bussadori, um gel a base de papaína, cloramina e azul de toluidina, denominado, Papacárie®, o qual alia as propriedades de seletividade e eficácia na remoção da cárie, com a máxima preservação dos tecidos dentários sadios, com o baixo custo.

  A papaína é proveniente do látex das folhas e frutos do mamão verde adulto, Carica papaya, cultivado nos países tropicais como: Índia, Ceilão, África do Sul e Hawai.

  A papaína é uma enzima similar a pepsina humana, com utilização nas indústrias alimentícias, farmacêutica, cosmética, entre outras (MADRID, 1998).

  A extração do látex do mamão se dá por incisões no fruto, havendo a liberação de um exsudato fluido límpido, aquoso, sensível ao oxigênio do ar e ao calor. Esse látex, depois de seco, pulverizado, peneirado e acondicionado adequadamente em frascos de polietileno, deve ser mantido ao abrigo da luz.

Com relação a outras enzimas naturais, a papaína possui algumas vantagens como:

Qualidade e atividade enzimática;

Estabilidade em condições desfavoráveis de temperatura, umidade e pressão atmosférica;

Encontra-se em alta concentração no látex extraído da casca do mamão;

Possui um elevado valor comercial devido à diversidade de utilização que apresenta.

  GUZMAN e GUZMAN, em 1953, relataram experiências clínicas com 20 doentes portadores de lesões de pele por queimaduras, observando que a ação enzimática da papaína foi excelente nas áreas com exsudatos, processos purulentos e necróticos.

  Em 1981, UDOD e STOROJUK utilizaram solução de papaína 0,2% em doentes com feridas cutâneas purulentas em diversas regiões do corpo. A papaína facilitou a limpeza dos tecidos necróticos e secreções, diminuindo o período de reparação tecidual e não prejudicando os tecidos sãos ao redor da lesão.

  Segundo FLINDST (1983), a papaína age apenas no tecido lesado devido à ausência de uma antiprotease plasmática, a a1-antitripsina, que impede sua ação proteolítica em tecidos considerados normais.

  MASINI et al., (1986) estudaram vinte pacientes com lesões de diversas origens, e dez ratos, com lesões provocadas cirurgicamente de modo a acompanhar o tipo de cicatrização e seu tempo de evolução cirúrgicas ou acidentais. O material empregado para o tratamento, foi uma associação de papaína e sacarose. O resultado foi considerado ótimo uma vez que as lesões, em média, eram de 2,5cm, e o tempo de cicatrização de, em média, 3,5 dias.

  SILVA et al., (2003) avaliaram a citotoxicidade in vitro do Papacárie, realizando testes a curto e longo prazo em cultura de fibroblastos nas diferentes concentrações (2%. 4%, 6%, 8% e 10%) de papaína e concluíram que, o mesmo, não demonstrou ser citotóxico em cultura de fibroblastos.

  É importante salientar as indicações do gel Papacárie®, o qual pode ser utilizado com sucesso em pacientes com necessidades especiais, odontopediatria, adultos fóbicos, cáries muito próximas à polpa, ou seja, em qualquer tipo de lesão de cárie, sendo uma das suas principais utilizações, sua utilização no âmbito da saúde pública, devido ao seu baixo custo. Além disso, não há qualquer risco se o gel entrar em contato com tecidos moles bucais, pois o mesmo não é tóxico, como comprovado nos inúmeros testes realizados.

TÉCNICA PARA REMOÇÃO QUÍMICA E MECÂNICA DA CÁRIE
UTILIZANDO O PAPACÁRIE

  Isolamento relativo do campo operatório, mesmo em cavidades médias ou profundas, não há necessidade de anestesia local.

  Aplicação do gel na cavidade, deixando-o agir por aproximadamente 30 segundos em cáries mais agudas e de 40 a 60 segundos em cáries crônicas

  Iniciamos a remoção do tecido cariado com curetas de dentina sem corte, ou com a porção contrária da cureta, fazendo uma raspagem do tecido degradado pelo gel.

  Havendo necessidade - o que geralmente ocorre - reaplicamos o gel. Quando não houver qualquer sinal de tecido amolecido, e não saírem mais raspas de dentina é hora de parar. O aspecto vítreo da cavidade representa a remoção de todo tecido cariado.

  Após a remoção de todo o tecido cariado, podemos realizar a restauração com qualquer tipo de material restaurador.

Lesão de cárie aguda
(foto inicial)
Remoção do tecido cariado
(note posição contrária da cureta)
Aspecto vítreo da cavidade
após remoção do tecido cariado

CONCLUSÃO

  O Papacárie® é um produto tão eficiente quanto o Carisolv™ na remoção de tecido cariado. Alia praticidade, facilidade de utilização e baixo custo, e não requer o uso de anestesia local. Sendo, portanto, uma ótima alternativa para a remoção da cárie dentária.


LUCIANA RAULINO DA SILVA
Especialista em Odontopediatria pelo Sind. Odontologistas do Estado de São Paulo - SOESP
Estagiária da Especialização em Odontopediatria do SOESP
Pesquisadora do Centro de Pesquisas da UNIMES/Santos

SANDRA KALIL BUSSADORI
Mestre em Materiais Dentários - FOUSP
Doutora em Odontopediatria - FOUSP
Profª Coordenadora dos cursos de Especialização e Aperfeiçoamento em Odontopediatria - SOESP
Profª Titular da Disciplina de Materiais Odontológicos da UNIMES/Santos

E-mail para correspondência: lu_raulino@uol.com.br

 
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